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Terror analógico: o terror em baixa resolução | Mundo & História
Cena de Vita Carnis, uma das séries de terror analógico recomendadas. (Reprodução)

Terror analógico: o terror em baixa resolução

Marcus Garrett traça um panorama deste aterrorizante subgênero do terror, originado parcialmente de filmes no estilo found footage.

Originado parcialmente de filmes ao estilo found footage (A Bruxa de Blair, Abdução: Incidente em Lake County, Apollo 18, REC, JeruZalem), mas também de historietas/pequenas crônicas/lendas urbanas da internet, as chamadas creepypastas (como Ted the Caver, considerada uma das primeiras publicadas), o gênero analog horror – o terror analógico – vem ganhando cada vez mais adeptos e fãs.

Tal alcunha advém, é claro, da baixa resolução proposital dos vídeos, bem como da estética que remete à televisão do século XX, mais especificamente relacionada aos anos 1970, 1980 e 1990. Imagem ruim e com chuviscos, “mastigados” resultantes das mídias magnéticas (fitas em pleno uso àqueles tempos, como a Betamax, a VHS e a U-matic), cores desbotadas e áudio abafado – tudo para, além de enredos misteriosos, mensagens enigmáticas e conteúdo perturbador, aguçar a imaginação do espectador. A falta de qualidade técnica e a baixa resolução fazem, é claro, com que o cérebro preencha as inúmeras lacunas.

Sente-se confortavelmente em sua poltrona e se prepare para conhecer alguns dos melhores vídeos do gênero – disponíveis gratuitamente no YouTube. Não se preocupe, não haverá spoilers!

Gemini Home Entertainment

Criação do jovem Remy Abode (provavelmente um pseudônimo) em 2019, a Gemini Home Entertainment traz excertos de fitas VHS lançadas pela distribuidora de mesmo nome. As tais “fitas” (na realidade, os vídeos disponíveis no YouTube), produções de empresas fictícias como a Regnad Computing e a Harbinge Technologies, apresentam conteúdo acerca de temas variados: animais “exóticos” do mundo, exploração espacial, dicas de segurança, um jogo de computador, camping… O material é quase sempre acompanhado da chamada “música de elevador”, ou seja, daquele tipo de trilha sonora instrumental de vídeos institucionais.

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Reprodução

Como de praxe no terror analógico, geralmente as coisas começam bem, mas vão degringolando paulatinamente conforme o desenrolar de cada episódio. Uns causam estranheza e confusão, outros dão sustos, mas alguns são bem perturbadores. Sem entrar em detalhes, uma invasão alienígena à Terra, por um planeta ou por uma entidade conhecida como “The Iris”, parece estar em andamento ou em vias de acontecer. Para tanto, são enviados ao nosso planeta, como batedores, seres como a planta Nature’s Mockery ou a criatura Woodcrawler. A disseminação de uma doença (seria mesmo uma doença?) horrível, conhecida como Deep Root Disease, foi igualmente posta em prática.

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Prepare-se para assistir aos 15 episódios regulares na playlist distribuída como Full Boxset, mas não se pode perder também a ótima série paralela, Library.

Vita Carnis

“…tem havido muito debate sobre o que são esses recém-chegados. Serão extraterrestres vindo invadir a Terra? Ou são demônios que vieram do Inferno para expurgar a humanidade?”.

Em 1931, descobriu-se uma criatura feita inteiramente de um novo tipo de carne, batizada de The Crawl, mas que mais se parece com uma planta ou com um fungo que adere às superfícies. A partir daí e mesmo sem conhecer a origem daquilo, a Humanidade se habituou a essa nova espécie em seu dia-a-dia, a qual se diversificou, produzindo outros seres advindos de seus “ramos”. Algumas dessas criaturas (oito diferentes até o momento, e todas com ausência de pele!), apesar da aparência repulsiva e do mau cheiro exalado, viraram pets (como os Trimmings) – e até são utilizadas na indústria, como as dóceis Meat Snakes. Outras, porém, são agressivas e oferecem perigo aos animais e às pessoas, como os Mimics, caçadores violentos e sedentos de carne humana. Há também, por exemplo, o gigante Monolith e o bizarro Host of Influence.

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Um terrível Mimic arrombando a porta de uma casa! (Reprodução)

Criados e produzidos por Darian Quilloy, os 17 episódios – até o momento – trazem, na forma de filmes secretos informacionais, vídeos desconcertantes, estranhos, repulsivos e obscuros. Haja criatividade!

The Monument Mythos

O ator James Dean, sex symbol de uma época, não se envolveu no acidente de carro que o matou em 1955. Não! Agora ele é presidente dos Estados Unidos da América. Esquisito? Bizarro? Há mais… Computadores foram banidos no final do século XX… Coisas estranhas, estranhíssimas, acontecem dentro ou em volta de monumentos famosos da América, como a Estátua da Liberdade, a Ilha de Alcatraz e o Lincoln Memorial. Monstros? Sociedades secretas? Alienígenas? Nova Ordem Mundial?

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Uma “Árvore” Especial. (Reprodução)

The Monument Mythos foi criada por um tal Mister Manticore (Alex Casanas), em formato de mockumentary (documentário de faz-de-conta), no ano de 2021. Há quatro temporadas, totalizando 48 episódios, até o momento. Como o próprio título sugere, existe uma imensa mitologia que permeia esse terror analógico, repleta de personalidades, criaturas misteriosas e situações. Interessante ressaltar: diversos eventos históricos dos EUA foram modificados, alterados de forma a retratar uma realidade diferenciada.

Backrooms

Backrooms (literalmente: quarto dos fundos, bastidores), que acabou por virar um subgênero do terror analógico, originou-se de uma creepypasta postada em 2019 no imageboard 4chan: a foto na qual se vê uma sala acarpetada de paredes amareladas, luzes fluorescentes e nada mais, seguida do texto abaixo, que aguça a imaginação:

“If you’re not careful and you noclip out of reality in the wrong areas, you’ll end up in the Backrooms, where it’s nothing but the stink of old moist carpet, the madness of mono-yellow, the endless background noise of fluorescent lights at maximum hum-buzz, and approximately six hundred million square miles of randomly segmented empty rooms to be trapped in.

God save you if you hear something wandering around nearby, because it sure as hell has heard you”.

Trocando em miúdos: se não se cuidar e “cair para fora” da realidade, você acabará nas Backrooms – onde não há nada além do que já descrevi: salas, salas e salas recheadas de paredes, luzes, carpetes e cheiro de mofo; um labirinto de “seiscentos milhões de milhas quadradas” de… nada. Será?

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Pessoas explorando as Backrooms. Por que? Quem? (Reprodução)

As Backrooms ganharam imensa popularidade com a série de vídeos criada por um garoto da Califórnia, Kane Parsons (conhecido como Kane Pixels), extremamente bem realizados em CGI num trabalho nada menos que primoroso. No primeiro episódio, intitulado de The Backrooms (Found Footage), de janeiro de 2022, acompanhamos um jovem cinegrafista cujo destino, infelizmente e literalmente, estava selado. Sem entender nada ao lá cair, ele explora o lugar até que encontra algo – ou esse algo o encontra… O autor produziu 19 ótimos episódios ao todo, procurando dar pistas – aqui e ali – sobre a origem daquele fenômeno, o qual parece existir em um universo paralelo ao nosso e estar cheio de surpresas. Curiosidade: os vídeos de Pixels provocaram uma enxurrada de imitadores, que nem sempre chegam à altura do criador.

The Oldest View

Kane Pixels, autor de Backrooms, acertou mais uma vez em The Oldest View. Wyatt, um YouTuber explorador (e estudante desistente de Botânica), depara-se com um estranho buraco “no meio do nada” ao pé de uma árvore, um carvalho, em uma área verde privada. Dentro do buraco, uma imensa escadaria, de dezenas de degraus, leva-o a uma porta igualmente estranha, velha, surrada. Aberta, Wyatt encontra uma saleta decrépita para lá de arrepiante, além da qual parece haver um… shopping center? Se mais fosse revelado aqui, eu cometeria um crime!

No clássico formato de found footage e como se fosse um vlog de exploração, tão comum no YT, The Oldest View é uma obra de arte. Os quatro episódios, intitulados de Renewal, Beneath the Earth, The Rolling Giant e Life of a Giant, apresentam um conto de horror baseado numa locação real (o Valley View Mall em Dallas, Texas) e em objetos reais (um boneco gigante que retratava o botânico Julien Reverchon, personalidade importante do Texas que faleceu em 1905). O CGI é tão perfeito que a recriação do interior do shopping em questão, o qual não mais existe (foi demolido em 2023), é difícil de se distinguir de imagens do empreendimento que vemos no YouTube. Impressionante: nós nos esquecemos – ou nem desconfiamos – de que aquilo tudo é pura computação gráfica!

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O estranhíssimo “Gigante Rolante” – baseado no botânico Julien Reverchon. (Reprodução)

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Não quisemos, nem de longe, esgotar o assunto ou listar todos os canais de YT relacionados ao terror analógico, essa tarefa seria hercúlea, já que praticamente todos os dias se criam novos vídeos. Mas… recomendamos, com muito prazer, estes outros: Local 58 TV, The Mandela Catalogue, The SMILE Tapes, The Walten Files e No Through Road. Divirtam-se!

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Marcus Garrett

Formado em Comunicação Social com Especialização em Biblioteconomia, Marcus Garrett é pesquisador da história da chegada dos jogos eletrônicos ao Brasil. Publica livros, revistas e documentários acerca do tema, bem como coedita a Histórias Extraordinárias, publicação dedicada à ficção científica, ao horror cósmico e ao sobrenatural. É contista amador, tendo escrito alguns contos para a citada revista.

Do passado ao futuro. Dos confins do universo às profundezas do mar. Mundo & História é um portal de notícias focado essencialmente em conteúdos de teor científico, curioso e histórico.